14 de outubro de 2013

Alma lavada

E ela queria desistir daquilo tudo. Da vida, se possível. Tudo corria bem e depois tudo desmoronou. “Por quê, meu Deus?” Ela não entendia o que estava acontecendo. Queria despir-se de sua própria alma e guardar no fundo do guarda-roupa. Guarda-alma, nomeava. Seria mais fácil guardar aquela dor. Dor em demasia. E a Margarida queria crescer, ser, viver. Mas moça, é assim mesmo. No outono as flores caem, mas na primavera elas voltam a crescer.
Não desista, moça, menina, flor.
“É assim mesmo”, repetia. “É viver ou viver.”
E ela revirou o olhar. Levou pra lavar. Lavanderia. Lava-alma, nomeava. E vestiu sua alma renovada e disse: “Melhor alma só lavada que alma desamada” e pôs-se a seguir quase transbordando. Transbordando de uma dor chamada amor. Dor boa. Paradoxo.
“E vai assim mesmo, moça, menina, flor?” E claro que ia, até porque alguém um dia disse: “Melhor alma só lavada que alma desamada."

10 de outubro de 2013

Pô Morena, minha rotina virou saudade

Virei a noite com café puro e alguns livros de ficção científica. Reli um daqueles romances clichês e adormeci na rede. Acordei por volta de 7:50 da manhã e me senti o máximo por ter acordado tão cedo sem despertador. Assisti um pedaço do jornal matinal e fui na portaria do prédio pegar o jornal jogado na grama molhada pelo entregador. Subi as escadas em movimento retardado. Abri a porta depois de ter demorado uns cinco minutos procurando a chave certa, e entrei. Li a manchete do jornal que dizia: "Psicólogos demostram o que pode fazer o seu dia mais feliz" e foi aí que eu parei e pensei: "Poxa, você faria o meu dia mais feliz".
Larguei o jornal em cima da mesa da cozinha com o café ao lado e liguei o rádio. Começou a tocar "Stop This Train" do John Mayer e eu disse bem baixinho: "Essa música sempre me lembrou você". Peguei uma toalha seca do varal improvisado e tomei um banho. Fiz a barba, escovei os dentes, arrumei o cabelo. Passei um perfume que você tinha me dado de presente e coloquei uma bermuda. Calcei. Peguei uma das melhores camisetas e vesti. Fechei o zíper. Olhei no espelho e me senti incompleto. Peguei um livro já lido e coloquei na mochila pra servir de companhia. Procurei pelas chaves, já que sou ótimo em perder as coisas. Já até perdi você, não é? Tranquei o apartamento e desci. Passei pela nossa loja de brinquedos preferida e lembrei de você. Fui ao trabalho e em cima da escrivaninha tinha uns papéis do chefe, uns papéis de bala e chiclete e uma foto nossa e, olha, lembrei de você. Umas 17:45, mais ou menos, fui para o ponto de ônibus e senti uma falta da sua mão na minha enquanto a gente esperava o 2b chegar pra gente ir juntos pra casa. Nossa casa. Sentei na calçada pra esperar e vi um casal de adolescentes de uns 17 anos passando e lembrei de mim e de você. O ônibus chegou. Sentei em uma das cadeiras do fundo e peguei o livro que eu havia levado. Lembrei de você reclamando do fato de eu ficar lendo livro dentro do ônibus e sorri. Cheguei umas 18:40 e subi as escadas. Tropecei e me lembrei de você. Levei uns 3 minutos para achar a chave como sempre, e abri a porta. Um dia eu ainda aprendo. Coloquei o livro de volta à pratilheira e peguei papel e caneta. Fiz uma xícara de café, mas acabei bebendo saudade. Nossa, pequena, bebi saudade a semana inteira e que Deus me perdoe, mas que sentimento filho da puta, viu? Pura saudade sua. Mais pura que café sem açúcar. "Engraçado o fato disso tudo me lembrar você", pensei. Peguei a toalha ainda molhada que usara de manhã, tomei um banho e então pensei: "Normalmente eu tomava banho com você". Vesti uma roupa qualquer. Peguei a coberta e fiquei no sofá da sala. Lembrei de você. Lembrei de quando a gente sentava nele e ficava contando histórias. E então eu disse: "Ah, morena, você é pura saudade" e adormeci. Bem naquele sofá da sala de estar. E por dias e mais dias eu murmurava: "Pô Morena, por sua causa minha rotina virou saudade. Saudade de você."